Sudão: entenda o que está por trás das manifestações no país


Presidente foi deposto e preso na quinta-feira (11) após meses de protestos. População quer governo civil para o país, um dos mais pobres do mundo. Manifestante durante um protesto neste domingo em Cartum, capital do Sudão. Stringer/Reuters Mesmo depois da queda do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, que ocupou o poder durante 30 anos, a mobilização no país continua: sudaneses foram às ruas da capital do país, Cartum, para denunciar a repressão e mortes após a queda do presidente. Eles querem que o governo seja assumido por um civil. A chefia do país foi assumida por uma junta militar após a deposição1 de Bashir, mas, sob pressão popular, o chefe do governo de transição deixou o cargo na sexta-feira. Por que os protestos começaram? Os protestos começaram em Atbara — cidade no nordeste do Sudão conhecida por atividades contra o governo — em 19 de dezembro. O governo havia tentado acabar com a falta de pão no país, o que fez os preços triplicarem. Revoltada com o aumento, a população foi às ruas — mas as manifestações foram reprimidas pelas autoridades, diz a Reuters. O Sudão sofre com uma profunda crise econômica que começou quando a parte sul do país se separou após um referendo em 2011, levando consigo a riqueza do petróleo. Em janeiro, a inflação no país já havia atingido 70%. Ele consta na lista da ONU como um dos menos desenvolvidos do mundo (em 39º lugar de 47 listados). Manifestante participa de um protesto em frente ao Ministério da Defesa, em Cartum, capital do Sudão, neste domingo (14). Stringer/Reuters O governo declarou estado de emergência na cidade e estabeleceu um toque de recolher, das 18h às 6h. A repressão severa das manifestações alimentou a raiva das pessoas. Até janeiro deste ano, 24 pessoas haviam morrido, segundo números oficiais; ativistas afirmaram, à época, que 40 pessoas haviam morrido. Àquela altura, no entanto, os protestos já haviam se espalhado para a cidade de Porto Sudão, no Mar Vermelho, e para al-Qadarif, no sudeste, antes de chegar à capital, Cartum. Os manifestantes também ficaram irritados com a escassez de dinheiro em circulação, causada por restrições a retiradas bancárias — que, por sua vez, tinham objetivo de manter o dinheiro nos bancos, que também lutam para encontrar dinheiro. O que começou como um protesto sobre as condições de vida no país virou, então, um protesto contra o regime. Ecoando as revoltas de 2011 que varreram outros países árabes, incluindo Tunísia, Egito, Síria e Bahrein, seu grito comum é: "As pessoas querem que o regime caia". Antes visto como o celeiro do mundo árabe, os manifestantes dizem que muitos anos de má administração transformaram o Sudão em um estado falido. Eles culpam Bashir pela secessão do Sudão do Sul e pelo fato de o Sudão ser colocado em uma lista de países que patrocinam o terrorismo. O ex-presidente é acusado pela Corte Internacional Criminal (ICC, na sigla em inglês) de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade no conflito armado da região de Darfur. População quer governo civil Manifestantes protestam em Cartum, capital do Sudão, nesta segunda (15). Umit Bektas/Reuters Os militares que assumiram o poder desde a queda de Bashir enfrentam, agora, pressão da população para entregar o governo a um civil. Eles anunciaram que ficariam no poder por até dois anos, suspenderam a constituição do país e impuseram um toque de recolher, entre 22h e 4h, por um mês. A Associação de Profissionais Sudaneses, organização à frente dos protestos, quer que o governo civil a ser instalado no país, leve Bashir e seus temidos Serviços de Segurança e Inteligência Nacional (NISS, na sigla em inglês) à Justiça, segundo a France Presse. Desde a independência do Sudão, em 1956, vários golpes militares levaram líderes autoritários ao poder no país. Os militares também intervieram pelo menos duas vezes, em 1964 e 1985, para apoiar revoltas populares por mudanças, diz a Reuters. O presidente sudanês Omar al-Bashir durante pronunciamento à nação do palácio presidencial em Cartum, na sexta-feira (22) Ashraf Shazly/AFP Nos últimos 30 anos, Bashir foi a liderança incontesta do Sudão. Ele procurou preencher cargos chave no exército sudanês e em vários aparatos de segurança com membros de seu partido, o do Movimento Islâmico, que tem uma ideologia similar à organização islâmica global Irmandade Muçulmana. Ainda assim, segundo a Reuters, antes da queda do ex-presidente os partidos de oposição sudaneses consideravam o exército um órgão aceitável para liderar um período de transição, até que novas eleições fossem organizadas. Por que o Sudão importa no cenário político internacional? Manifestantes protestam em Cartum, capital do Sudão, neste domingo (14). Umit Bektas/Reuters O Sudão esteve, por um longo tempo, isolado pelas sanções econômicas e comerciais dos Estados Unidos — impostas pela primeira vez em 1997, pouco depois de o país abrigar Osama bin Laden. As sanções foram encerradas em outubro de 2017. O presidente deposto, Omar al-Bashir, buscou melhorar a relação com os EUA, oferecendo cooperação na área de segurança — mas também cortejou a Rússia. Ele enviou tropas para apoiar uma aliança árabe ao Iêmen, liderada pelos sauditas, para tentar conter a influência iraniana no país. No entanto, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm demorado em entregar ajuda ao Sudão — por suspeitar de seus laços com o Catar, rival do Golfo, e com a Turquia, que tem uma base na ilha sudanesa de Suakin, no Mar Vermelho. O Sudão também é uma peça fundamental no Chifre da África, área onde as potências internacionais competem por influência. Além disso, também é uma rota de trânsito para migrantes africanos tentando alcançar o Mediterrâneo a caminho da Europa.
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