A tragédia mata também a razão


É oportunismo usar o massacre de Suzano para defender esta ou aquela lei sobre armas Flores depositadas no muro da Escola Estadual Raul Brasil, em homenagens às vítimas do massacre em Suzano Alan Severiano/TV Globo É de um oportunismo inominável usar o massacre de Suzano para fins políticos. Massacres como esse chocam tanto justamente por ser tão raros. Não têm nada, rigorosamente nada, a dizer sobre a eficácia desta ou daquela legislação sobre armas de fogo. Houve apenas oito casos no Brasil desde 2011. Eles deixaram 23 mortos, uma fração ínfima das quase 436,4 mil vítimas fatais de homicídios, latrocínios ou lesões letais no período, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Monitor da Violência, do G1. Mesmo nos Estados Unidos, onde são mais frequentes, os casos que chocam a opinião pública são raríssimos. Incluindo não apenas as chacinas escolares, houve 110 desde 1982, num total de 888 mortos, segundo levantamento da Mother Jones. Por lá, dois terços das mortes por armas de fogo são suicídios. No Brasil, 86% são homicídios. O debate sobre as armas entra na discussão intrinsecamente complexa sobre a eficácia das políticas públicas de segurança. A violência é resultado de múltiplos fatores. Há uma dificuldade enorme para tentar separá-los e avaliar a relevância de cada um nos crimes violentos. É ainda mais complicado, uma vez estabelecida uma correlação estatística – digamos, entre queda no número de homicídios e das armas em circulação –, extrair daí uma relação de causa e efeito. É possível que a maior quantidade de assassinatos seja resultado de mais armas? Sim. Mas também é possível que a população se arme mais como resultado do medo de assassinatos. A proporção de homicídios por armas de fogo no Brasil se mantinha aproximadamente constante desde 2002, mas cresceu nos últimos quatro anos. É um dado à espera de interpretação. Numa situação em que não se conhece a direção da causalidade, a chance de cometer erros de análise é enorme. Usar casos excepcionais para daí extrair conclusões gerais é ainda mais perigoso. O mais intuitivo – “ah, mas e se houvesse alguém armado capaz de deter os facínoras?” – nem sempre está certo. A história da ciência está repleta de exemplos de logros da intuição à razão. A estratégia de usar tragédias para promover agendas políticas é eficaz por causa daquilo que o filósofo Robert Nozick chamava de “sociologia normativa”, a tentação de que alguém (em geral, o governo) “precisa tomar uma atitude, fazer alguma coisa”. Toda desgraça desperta em cada um de nós a sensação de que seria possível ter feito algo para evitá-la. Autoridades se apressam em anunciar medidas, pôem em marcha projetos, como se isso tivesse o condão de evitar a próxima. Não que não seja importante. Mas nem tudo é resultado de omissão das autoridades. Tragédias como a de Suzano são tão apavorantes por mostrar um lado do ser humano que temos dificuldade de encarar. Os assassinos pareciam misturar uma cultura que venera as armas e a violência à pura insanidade. Nenhum desses problemas tem solução fácil. Sim, o Brasil precisa discutir o porte de armas. Sim, o Brasil precisa de mais segurança nas escolas. Sim, o Brasil e o mundo precisam compreender os mecanismos que tornaram as redes sociais um meio de difusão de ideologias mortíferas e de exibicionismo macabro. Sim, precisamos cuidar de nossos doentes mentais. Tudo isso é verdade. Tudo isso é importante. Mas nada disso será capaz de nos proteger do horror de tragédias como a de ontem. Este é um momento em que precisamos de união, não de debates divisivos. Para prestar às vítimas a homenagem devida e garantir aos próximos e familiares o espaço e o tempo para o luto sofrido, doloroso e necessário. Arte/G1
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