Elza Soares responde foto de diretora da Vogue que remete a escravidão

Elza Soares, 81, publicou uma foto em seu Instagram em referência à imagem veiculada nos últimos dias da festa de aniversário de Donata Meirelles, diretora da Vogue Brasil.

A executiva aparece em fotos que, segundo internautas, lembram a escravidão. "Tinha até um 'trono de sinhá' para que os convidados tirassem fotos ao lado das 'mucamas", escreveu um deles.

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Na publicação de Elza, ela aparece em fotos sentada na mesma espécie de trono, e escreve uma "resposta" à repercussão de Donata.

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Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos “patrões”. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos em festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pô de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não “pegava bem” ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que gravadoras não davam coquetel de lançamento para os “discos dos pretos”. Celebro minha origem ancestral desde que “música de preto” era definição de estilo musical. Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o “título” de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele “clara”. Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que “lugar de preto é nessa Senzala moderna”, disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país. Hoje li sobre mais uma “cutucada” na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. Seguimos em luta

Uma publicação partilhada por Elza Soares (@elzasoaresoficial) a 10 de Fev, 2019 às 10:36 PST

"Hoje li sobre mais uma 'cutucada' na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para 'enfeitar' um momento feliz da vida", escreveu na legenda.

Donata esclareceu a polêmica lembrando que às sextas-feiras, é comum usar branco na Bahia. "Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa", publicou. "Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas."

Na ocasião da foto de Donata, a historiadora Lilia Schwarcz também se pronunciou: "Alguém me explique o que faz uma diretora de uma famosa revista feminina, a Vogue, dar uma festa de aniversário em Salvador, no dia 8 de fevereiro, em ambiente escravocrata do Brasil colonial?"

"E o que faz uma pessoa se vestir de sinhá, e ficar recebendo os convidados ao lado de duas mucamas? É isso que se chama racismo estrutural!", continuou. "Muito triste esse nosso país que cria essa falsa nostalgia de um passado romântico que jamais existiu. O dia a dia da escravidão foi duro e violento. Não há nada para comemorar ou celebrar."

Em sua publicação, Elza comenta a questão da escravidão: "Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso para quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira."

A cantora, neta e bisneta de escravas, disse ainda que celebra com orgulho a sua raça "desde quando não era elegante ser negro nesse país", e lembra ações comuns e antigas que demonstravam a discriminação a negros.

"Essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que 'lugar de preto é nessa Senzala moderna', disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país." Com informações da Folhapress.

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